Quem sou eu

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
AUTO-RETRATO Já tantas vezes me expus// à luz do mundo,// por dentro, bem fundo...// Mas de novo aqui me retrato// já que este ato me ensina// quem é, de verdade, a Lina.// Então me viro do avesso.// Sem empeço, eu me desnudo// e me mostro...quase tudo...// Brota-me o amor sem parar// do coração agitador,//obstinado. Amar, eis o meu fado.// Fincada no peito tenho uma bandeira:// liberdade, altaneira !// Desfraldada do meu jeito...// A verdade é minha lei.// Lealdade, questão de crença.// Sou fiel desde a nascença.// Sou uma alegre criança// cheia de esperança em mim...// Hei de ser uma mulher ao fim !// Não sinto fastio de me descobrir.// Gosto-me assim, deste feitio.// Sou, ainda, um porvir...

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Licença Creative Commons A obra CANTO UM de Lina Meirelles foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada. Com base na obra disponível em recantodasletras.uol.com.br.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

DO MAR

O mesmo sal...
E as mesmas gotas,
translúcidos cristais
que formam ondas,
enormes tsunamis
ou simples marolas,
que se lançam
serenas ou avassaladoras
no mesmo colo abraçador,
com a mesma fímbria rendada
que se desmancha no ar...

O mesmo verdeesperança,
alegre ensolarado,
que traz a paz
por um momento fugaz;
o mesmo negroazul
profundo e soturno
que esconde segredos
e medos
há muito naufragados
de tristeza, na dor.

O mesmo sem fim...
A mesma
imensa solidão
que há no mar
existe em mim...

Lina Meirelles


CÃO SEM DONO

Este é um poema
vadio, cão sem dono
que late pra lua cheia
na falta do que fazer
e sem sono
revira o lixo
da alma nua, rastreia
o vazio, um bicho.

Anda a esmo, perdido,
vaga no mundo
e cava bem fundo...
fareja, procura.
Corre. Morde
um verso sem sentido,
quem sabe atrás de si mesmo.
E morre...

Lina Meirelles
Rio, 24/02/11



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

CHUVA MANSA 

 
Chove lá fora
e cá dentro
a alma chora.

Lembranças
vêm em pingos,
choramingos...

Sem demora,
vão-se
poça adentro,

esperanças
perdidas,
mansas gotas

caídas, mingos
duma saudade
ainda moça...


Lina Meirelles


IMAGINAÇÃO


Quis um poema
plástico
elástico
fantástico.

Pensei um poema
presente
evidente
envolvente.

Criei imagens
fiz colagens
abri passagens
sugeri viagens.

Animei lembranças
acordei crianças.
Lancei lanças
abalei esperanças.

Quis um poema
imaginante
que levasse adiante,
mostrasse o perdido.

Para além das aparências,
abeirante,
fiz um poema
de ausências...

Lina Meirelles


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ALUMBRAMENTO


E nada mais importa...

A luz é tanta que cega,
tudo cessa, a vida recorta
a paz, o coração dispara,
a voz tropeça na garganta.
Um instante infinito
segrega a alma,
maravilha atroz.
Quanta esperança, quanta!

Mistério de sonho e luar,
clarão de amor
vislumbrado em renda de vitral.
Quanta alegria, quanta!


Mágica fantasia!
Faz a solidão raiar em ousadia.
Alucinação que seduz,
fogo-fátuo que a razão denega,
num momento um e outro
esquecem do mundo
no torpor da entrega,
à porta do enamoramento.

E tudo os conforta...


Lina Meirelles







terça-feira, 8 de fevereiro de 2011


FIAPOS

Era apenas um fiozinho
que teimava agarrado
nas pálpebras,
sob os cílios...
Custei a pegá-lo
entre os dedos
polegar e indicador.
Seria amor ou seria dor?

Foi só um momentinho
que passava apressado
entre as páginas
dos exílios...
Tardei a vivê-lo
sob os medos
de negar ou compor.
Seria amor ou seria dor?

É somente um carinho
que ficava guardado
sob as mágicas
dos idílios ?
Demorei a reconhecê-lo
entre os segredos
do aceitar e do supor.
Será amor ou será dor?

Será justo o que adivinho
que andava disfarçado
sob as mágoas,
eternos domicílios ?
Hesitei em resgatá-lo
dos degredos...
Entre o clamar e o torpor
é amor. E é dor...

Cada um fiapinho
que restava esgarçado
das lágrimas,
sem auxílios,
emendei, sem negá-lo.
Entrelacei a vida, teci enredos
entre o cantar e o langor
do amor e da dor.


Lina Meirelles

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

LEVEZA

Pluma bailarina
que flutua
entre a sombra e a luz,
a palavra nua dança
na tela branca,
não dita.

Cintila
como a lágrima
não chorada ,
pendurada no olhar
de uma lembrança
proscrita.

Solta,
borboletinha mansa,
seduz.
Presente ausente
na insustentável solidão,
um poema incita.

Leve
como um fio de seda
baila e tece.
E a saudade, muda e queda,
de repente
aparece. Bonita.

Lina Meirelles