Quem sou eu

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
AUTO-RETRATO Já tantas vezes me expus// à luz do mundo,// por dentro, bem fundo...// Mas de novo aqui me retrato// já que este ato me ensina// quem é, de verdade, a Lina.// Então me viro do avesso.// Sem empeço, eu me desnudo// e me mostro...quase tudo...// Brota-me o amor sem parar// do coração agitador,//obstinado. Amar, eis o meu fado.// Fincada no peito tenho uma bandeira:// liberdade, altaneira !// Desfraldada do meu jeito...// A verdade é minha lei.// Lealdade, questão de crença.// Sou fiel desde a nascença.// Sou uma alegre criança// cheia de esperança em mim...// Hei de ser uma mulher ao fim !// Não sinto fastio de me descobrir.// Gosto-me assim, deste feitio.// Sou, ainda, um porvir...

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Licença Creative Commons A obra CANTO UM de Lina Meirelles foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada. Com base na obra disponível em recantodasletras.uol.com.br.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

AINDA
Ai, ai... Ainda sonho
e então vivo, ainda.
Ainda carrego
uma canção
que não finda...

Ainda escreverei o poema derradeiro.
Ainda hoje. Ou amanhã.
Terá vinte e cinco versos ,
e, ainda, cinco estâncias.
Ainda revelarei os motivos imersos.

Ainda há um ano eu era feliz
porque ainda pensava que a vida
seguiria em paz
e não macularia meus devaneios,
ainda os mais puros...

Ainda assim não paro de cantar...canto ainda.
Quero tanto que ainda tento por meus anseios.
Não desistirei ainda
por todas as dores que sofrer.
Sou poeta, ainda que faça versos tortos.

Se ainda todos os amores forem mortos
restará, ainda, um último lamento,
a canção mais triste que ainda farei...
Meu canto ressoará, ressoará ainda,
e lentamente morrerá.

Lina Meirelles
Rio, 17.11.11









domingo, 30 de outubro de 2011

ANDARILHA

Sigo só.

Não há o que ficou para trás.

Não há mais o adiante.

Caminho no beiral do eterno

solta no instante que é.

Nada trago , nada levo.

Ando pela senda do nunca

dentro do espaço sem fim,

fora do tempo, sem mim.

Sou presença ausente

que percorre descaminhos

sem margens

Toco o infinito.

Desenraizei.

 
Lina Meirelles
Rio, 25.10.11

domingo, 21 de agosto de 2011

CONDICIONAL

 
Se a brisa brinca nas folhas no jardim
e borda em branco as ondas do mar;
se a gota da chuva desce a pétala da flor
como a lágrima desliza pela face do amor;

Se o sol brilha d’aurora ao poente
e a luz do arrebol anda junto à escuridão;
Se a própria vida reluz como diamante
mas é quebrável como a frágil vidraça...

Se a saudade não vai embora
e da hora fica a doce ilusão;
se a quimera ainda resta
depois de terminada a festa...

Se todo início um dia chega ao fim
e à beira do precipício é voar ou voltar.
Se não se pode deixar de ir adiante
e o mais certo é aceitar que tudo passa...

Se a verdade está na simplicidade,
na harmonia entre o ser e o estar;
se a insustentável felicidade
se apóia numa indubitável condição...

Se a ventura depende da humilde aceitação
da imensidade e beleza dos dons que a vida emana...
Então,com certeza, o segredo para ser feliz
é acatar essa humana, admirável limitação.

Lina Meirelles
Rio, 21.08.11





terça-feira, 16 de agosto de 2011

DA ENTREGA
 
O amor quando se anuncia
traz sinais de imolação.
Suplicia a alma
atada por um fio
no meio do turbilhão.
 
Quem se dispõe a amar
pressente o vazio de si.
 
O amor quando se assenta
traz consigo um grilhão.
Renuncia a calma,
revolteia o rio,
submete à escravidão.
 
Quem se dispõe a amar
consente o vazio de si.
 
O amor quando acontece
reclama a capitulação.
Oferece a palma
a quem sossega, cabalmente pio,
numa total rendição.
 
Quem se dispõe a amar
persente a total entrega de si.
 
Lina Meirelles
Rio, 16.08.11






sábado, 9 de julho de 2011

A MENTIRA



E as coisas não ditas nem escritas
restaram no entremeio da paixão.
Silenciosas, germinaram no vazio.
Manaram um rio, vagarosas...

 
Sem alardeio as águas caladas
encharcaram as margens
foram juntando aluvião
sufocaram os personagens...

 
A inundação arrastou o alheio
para as almas alagadas, aflitas.
A falsidade invadiu a imaginação,
afogou toda a vontade.

 
Palavras perdidas
atolaram no lodaçal da mentira,
abriram feridas,
rachaduras sem conta.

 
Eu sabia e sentia tudo.
Tu sabias, jazias mudo.
Cegos às cesuras.
Cerrados em armaduras.

 
Mas o tempo passa e afinal,
sobre a primazia da impostura,
bem no centro do lamaçal,
a verdade, pura e nua, desponta.

 
Lina Meirelles
Rio, 09.07.11




SECRETUM SECRETORUM

 
Por baixo destas linhas
há coisas não ditas
só minhas.

Por baixo dos escritos
transversos,
calados ficam os gritos.

Por baixo destes versos
estão todos os medos.
Submersos.

Por baixo do que imaginas,
refaço sonhos alados
a partir de ruínas.

Por baixo do que lês
guardo muitos bruxedos.
E tu não vês.

Por baixo do que digo
os meus segredos
vão morrer comigo.

Por baixo deste poema
não há algema.
A vida é extrema.

Lina Meirelles
Rio, 07.07.11





terça-feira, 5 de julho de 2011

Solo tu, sólo yo..Tozzi

TALVEZ


Um e um,
tão diferentes somos
e vamos lado a lado
por noites e canções,
paralelamente
encantados
magneticamente
provocados,
dizem,
por destino, alados.

 
Dois. Somados
por desatino
da gente
dos serões,
nos porões das mentes
temos um infinito comum.
Tu e eu. Nós, assim designados.
Ou, talvez,
eternamente,
um e um.

 
Lina Meirelles
Rio, 05.07.11



sábado, 2 de julho de 2011

Gary Moore - Still Got The Blues (Live) (HQ)

ÁLBUM DE RETRATOS

 
Tarde de inverno.
Tudo é gris.

 
Os dedos tocam
texturas inexistentes;
os olhos, as cores
sem contrastes suficientes;
sinto sabores impossíveis,
odores imprevisíveis,
sons inaudíveis...

 
Passeio entre máscaras sucessivas,
meio mortas meio vivas,
fantasmas iludíveis.
Atriz principal sem nome ou face
desfilando personagens
diante duma plateia vazia,
vejo-me por quem já não sou.

 
Na tarde fria, em matiz,
uma vida estampada em imagens.

 
Lina Meirelles
Rio, 29.06.11





terça-feira, 31 de maio de 2011

CHEIA DE GRAÇA
 
É a mulher que chora
de felicidade e sorri
quando segura o pranto.

É aquela que precisa gritar
e acoberta em suave canto
o horror da alma ferida.

É a mulher que ama
quem a despreza; não se queixa.
Enigmática, leva a cruz.

É também a que olha
mas ainda não vê o sentido da vida;
no entanto, reza e crê.

Dos sentimentos é ela
a guardiã e mensageira
virtuosa, sem jaça.

Presença mansa,
mulher que pensa e seduz,
avança carismática.

Cheia de graça é a mulher
que deixa por onde passa
um rasto de LUZ.


Lina Meirelles
Rio, 31.05.11


quinta-feira, 5 de maio de 2011

SEQUESTRO


E porque chegaste devagar,
muito manso, não percebi
as primeiras flores mortas
pisoteadas no chão do jardim.
Abri as portas e me perdi.

 
Bandido disfarçado, cobraste
com violência velada
rendição e entrega.
Presa em cativeiro, ausente do mundo,
fui vítima da dependência cega.

 
Sem algema ou corrente
a dor doía mais e mais fundo...
Roubada de mim
sem horizonte de sentido
a liberdade desaprendi.

 
Negociação recusaste.
Na terrível e dura solidão
desesperada me neguei
o direito de ser.
Paguei o mais caro resgate.

 
À beira da loucura, um milagre aconteceu.
Tão distante de tudo recobrei a visão
passei a crer na beleza do sonho possível.
Renovada, libertei-me da clausura.
Comprei novamente o que sempre foi meu.

 
Lina Meirelles
Rio, 06.05.11




quarta-feira, 4 de maio de 2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

CARISMA

 
Alva açucena num jardim sombrio,
tão segura de si e serena,
tem a força da palavra mansa.

 
Qual figura amena de um querubim
atrai confiança. Em sensata fala,
incita à mudança. E cala.

 
Com o dom da clareza seduz.
Sua face enigmática
fascina.
Cheia de graça,
mágica feminina,
encanta por onde passa.

 
E de mãos abertas conduz,
carismática,
ao caminho da Paz e da Luz.

 
Lina Meirelles
Rio, 29.04.11



terça-feira, 12 de abril de 2011

                                                  Foto: Maria Martins in olhares.com.br -30.04.07

MOTIVO

 
Uma andorinha sozinha voando no céu,

a rosa amarela perdida em buquê,

a folha de outono bailando ao léu,

 
um sonho sem sono que é puro clichê...

 
A nuvem branquinha que se desfaz,

a moça à janela esperando alguém,

o tempo que passa e não traz a paz,

 
um verso entrelinha que ninguém lê...

 
O esplendor no escuro da ausente razão,

a merecida graça do gozo subjetivo,

tudo tem seu valor nesta vida porque

 
o amor é o motivo - para quem sente e crê...

 
Lina Meirelles

Rio, 12.04.11





domingo, 10 de abril de 2011

ESPERANÇA VÃ

A paisagem sob os olhos
vai passando
fugaz...
Estações, amores, sonhos
vão ficando
para trás, abrolhos.

Na memória,
tatuagens lisas
e cicatrizes de incisas feridas.
Marcas da história,
colagens
em matizes risonhos.

Uma pintura acabada,
de imagens partidas e tantas,
que se quer restaurar...
Mas a vida avança,
esmaecendo as cores
da vã esperança.

No quadro redivivo
a natureza jaz. Fria e morta.
E a beleza do que se vai
amortecendo,
apenas traz uma clareza:
só a saudade conforta.

Lina Meirelles

sábado, 9 de abril de 2011

DOS ESPELHOS

Nos teus olhos eu me vejo.
Nos meus olhos tu te vês.
Olhos revelam sonhos.
Olhos refletem seus donos.
Mas a dupla face do olhar
espelha um constante esquivar-se.
Revela de cada um o seu disfarce.
Mostra só uma centelha
do que seria, por dentro, viajar-se.
Olhos não dão abonos.

A vida é um jogo de espelhos;
há reflexos por todo lado.
Há sempre alguém olhando
e, também, sendo olhado...
Fragmento perplexo, integro
imagens cambiantes
em conjuntos complexos.
Aquele que me retrata
sem ter em conta esses nexos
não me traduz de forma exata.

Lina Meirelles





quinta-feira, 24 de março de 2011

DA  ESPERA
                                                                            
Ela só vem quando quer.
Também vai a qualquer hora.
É volúvel essa mulher...
não demora. Resta pouca.

Quando chega faz a festa
e pra vida traz o bem.
Quando sai deixa amargor
e do nada , assaz terror.

Nunca falta ou se cansa.
Anda sem pressa, não corre.
Na ribalta, a louca esperança
é sempre a última que morre.

Lina Meirelles
Rio, 24.03.11